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Sirat: O “Mad Max Espiritual” de Oliver Laxe Promete uma Jornada Pelo Deserto da Alma

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Sirat: O “Mad Max Espiritual” de Oliver Laxe Promete uma Jornada Pelo Deserto da Alma

No cenário cinematográfico contemporâneo, poucas descrições de um filme são tão imediatamente intrigantes e paradoxais quanto a que o diretor Oliver Laxe deu para seu novo e aguardado projeto, Sirat. Em uma entrevista reveladora, o aclamado cineasta por trás de obras como O que Arde descreveu seu próximo filme como um “Mad Max espiritual”.

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A frase, por si só, é uma obra de arte. Ela evoca a imagem da ação desenfreada, da estética pós-apocalíptica e da luta pela sobrevivência de George Miller, mas a funde com a promessa de uma jornada interior, de uma busca por significado e transcendência. Não se trata apenas de sobreviver no deserto físico, mas de atravessar o deserto da alma.

Essa descrição ousada e provocativa imediatamente posiciona Sirat como um dos projetos mais originais e ambiciosos em desenvolvimento. Laxe não está interessado em simplesmente replicar a fórmula de Mad Max. Ele está usando sua linguagem visual icônica como um ponto de partida para explorar temas muito mais profundos e filosóficos.

image-163-1024x597 Sirat: O "Mad Max Espiritual" de Oliver Laxe Promete uma Jornada Pelo Deserto da Alma

A promessa não é de um filme de ação com um toque de espiritualidade, mas de um filme espiritual que se manifesta através da linguagem da ação e do pós-apocalipse. É uma proposta que desafia as convenções de gênero e promete uma experiência cinematográfica única, que pode ser, ao mesmo tempo, visceralmente emocionante e profundamente comovente.

Vamos mergulhar no que essa visão significa, quem é Oliver Laxe e por que Sirat tem o potencial de ser uma obra-prima inesquecível.

Quem é Oliver Laxe? O Cineasta da Natureza e da Alma

Para entender a promessa de Sirat, é preciso entender quem é Oliver Laxe. O diretor galego-francês não é um cineasta de blockbusters. Sua filmografia é marcada por um cinema contemplativo, visualmente deslumbrante e profundamente conectado com a natureza e a espiritualidade.

  • Um Cinema de Imersão: Filmes como Todos vós sodes capitáns e, especialmente, o premiado O que Arde, são experiências imersivas. Laxe tem uma habilidade única de nos transportar para seus cenários, de nos fazer sentir o calor do fogo, a umidade da floresta, a vastidão da paisagem. Ele usa longos planos, som ambiente e um ritmo deliberado para criar uma atmosfera que é quase tátil. Essa abordagem, aplicada a um cenário desértico e pós-apocalíptico, tem o potencial de ser incrivelmente poderosa.
  • A Natureza como Personagem: Em seus filmes, a natureza nunca é apenas um pano de fundo. Ela é uma força ativa, um personagem com sua própria vontade, sua própria beleza e sua própria fúria. Em O que Arde, o fogo é tanto um destruidor quanto um purificador. Em Sirat, o deserto provavelmente desempenhará um papel semelhante. Não será apenas um obstáculo a ser superado, mas um espelho para a alma dos personagens, um lugar de provação e revelação.
  • A Busca por Transcendência: Os personagens de Laxe estão muitas vezes em uma busca, mesmo que não saibam disso. Eles são figuras marginais, em conflito com a sociedade e consigo mesmos, procurando um lugar no mundo, uma forma de redenção ou de conexão com algo maior. A espiritualidade em seus filmes não é dogmática ou religiosa no sentido tradicional, mas uma busca imanente por significado na relação com o mundo natural e com os outros.

Ao trazer essa sensibilidade para um gênero tradicionalmente associado à ação e ao espetáculo, Laxe está se preparando para criar um híbrido fascinante.

Decodificando o “Mad Max Espiritual”

O que exatamente significa essa fusão de conceitos?

  1. A Estética Pós-Apocalíptica como Metáfora: Em Mad Max, o mundo em colapso é o resultado de guerras por recursos. Em Sirat, o deserto e os resquícios de uma civilização podem ser uma metáfora para um colapso interior, um vazio espiritual. Os veículos improvisados, a luta por água e combustível – todos esses elementos podem ser usados não apenas como motores da trama, mas como símbolos da condição humana em um mundo que perdeu seu rumo. A busca por gasolina pode ser, na verdade, uma busca por um propósito, por algo que nos mantenha em movimento.
  2. Ação como Ritual: As sequências de ação em Mad Max são balés de caos e destruição. Em Sirat, a ação pode ser tratada de forma diferente. Uma perseguição de carros no deserto pode ser filmada não apenas para gerar adrenalina, mas como uma espécie de ritual, uma dança febril e desesperada pela sobrevivência que revela o caráter dos personagens. A violência pode não ser glorificada, mas mostrada como uma consequência trágica de um mundo sem alma, um ciclo do qual o protagonista talvez esteja tentando escapar.
  3. O Herói Silencioso em uma Jornada Interior: Max Rockatansky é um homem de poucas palavras, assombrado por seu passado. O protagonista de Sirat pode compartilhar essa característica, mas sua jornada pode ser explicitamente interior. A travessia do deserto pode ser uma peregrinação. Cada encontro, cada desafio, pode ser uma provação espiritual. O objetivo final pode não ser chegar a um oásis verde, mas alcançar um estado de paz interior, de iluminação ou de aceitação.
  4. O Deserto como Espaço Sagrado: O deserto, em muitas tradições espirituais, é um lugar de purificação e revelação. É onde os profetas vão para encontrar Deus, onde os eremitas vão para encontrar a si mesmos. Laxe, com seu olhar para a paisagem, pode transformar o deserto de Sirat em um personagem imponente e ambíguo. Um lugar que pode matar, mas que também pode curar. Um vazio que, paradoxalmente, pode preencher a alma.

A Trama de “Sirat”: O Caminho da Provação

O título do filme, “Sirat”, já é uma pista poderosa. Na tradição islâmica, a “Sirat al-Mustaqim” é o “caminho reto”, e a ponte As-Sirāt é uma ponte que todos devem atravessar no Dia do Juízo, uma ponte mais fina que um fio de cabelo e mais afiada que uma espada, que leva ao paraíso. Aqueles que foram justos a atravessam com facilidade, enquanto os pecadores caem no inferno abaixo.

Essa imagem é uma metáfora perfeita para a jornada que Laxe parece estar propondo.

  • Uma Peregrinação Perigosa: A história provavelmente seguirá um protagonista em uma jornada através de um deserto implacável. Ele pode estar fugindo de algo, ou em busca de algo – um lugar sagrado, uma pessoa perdida, ou a própria redenção. O “caminho” não será fácil. Ele será testado por facções violentas (os “War Boys” espirituais), pela dureza da natureza e por seus próprios demônios interiores.
  • Encontros no Deserto: Ao longo do caminho, ele provavelmente encontrará outros viajantes, cada um em sua própria jornada. Alguns podem ser aliados, outros, inimigos. Cada interação será uma oportunidade para explorar diferentes filosofias de vida e de sobrevivência. Podemos encontrar uma comunidade que renunciou à tecnologia, um líder de culto que oferece uma falsa salvação, ou um eremita que detém uma sabedoria antiga.
  • O Conflito entre o Material e o Espiritual: O filme provavelmente colocará em contraste a luta desesperada por recursos materiais (água, combustível, peças de veículos) com a busca do protagonista por algo intangível. Enquanto todos ao seu redor estão lutando para sobreviver fisicamente, ele pode estar lutando para salvar sua alma. Essa tensão será o coração filosófico do filme.

O Potencial de “Sirat”: Uma Obra-Prima em Formação

Se Oliver Laxe conseguir realizar sua visão, Sirat tem o potencial de ser um filme marcante por várias razões.

  • Redefinindo um Gênero: O filme pode criar um novo subgênero: o “pós-apocalíptico contemplativo” ou o “western espiritual”. Ele pode provar que a linguagem visual da ação e da ficção científica pode ser usada para contar histórias profundamente pessoais e filosóficas, abrindo novos caminhos para outros cineastas.
  • Uma Experiência Cinematográfica Total: Combinando a beleza visual e a imersão sonora do cinema de Laxe com a energia cinética de um filme de ação, Sirat promete ser uma experiência para todos os sentidos. Será um filme que você não apenas assiste, mas sente. A vastidão do deserto na tela grande, o som do vento e dos motores, a intensidade silenciosa do protagonista – tudo isso contribuirá para uma experiência cinematográfica poderosa e inesquecível.
  • Relevância Contemporânea: Em um mundo cada vez mais caótico, polarizado e ambientalmente frágil, a ideia de um colapso e de uma busca por significado é incrivelmente relevante. Sirat pode funcionar como uma alegoria para nossos tempos, um espelho distorcido que reflete nossas próprias ansiedades e nossa própria busca por esperança em meio ao caos.

A descrição de Sirat como um “Mad Max espiritual” é uma das declarações de missão mais empolgantes do cinema recente. É a promessa de um filme que se recusa a ser encaixotado, que ousa ser, ao mesmo tempo, espetacular e introspectivo, brutal e belo.

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Oliver Laxe é um dos poucos diretores em atividade com a sensibilidade e a coragem para tentar algo assim. Ele tem a capacidade de encontrar poesia no caos, transcendência na violência e beleza no vazio. A jornada pela ponte As-Sirāt é uma jornada de julgamento, e parece que Laxe está nos convidando a atravessá-la com seu protagonista. Será uma viagem perigosa, árdua e, muito provavelmente, transformadora. E nós mal podemos esperar para dar o primeiro passo.

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Apaixonado por filmes, séries e cultura pop. No Telinha e Telona, compartilho análises, curiosidades e novidades do mundo do entretenimento de forma leve e descontraída.

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