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Frankenstein de Del Toro: As Mudanças que Prometem a Versão Mais Fiel (e Dolorosa) do Monstro

Frankenstein

Frankenstein de Del Toro: As Mudanças que Prometem a Versão Mais Fiel (e Dolorosa) do Monstro

Frankenstein; ou, O Prometeu Moderno, o romance seminal de Mary Shelley de 1818, não é apenas uma história de terror. É o texto fundador da ficção científica, uma meditação filosófica sobre a criação, a responsabilidade, a solidão e a natureza da monstruosidade. No entanto, por mais de um século, o cinema tem, em grande parte, traído sua alma. A imagem popular de Frankenstein é a do monstro de pescoço aparafusado de Boris Karloff – uma criatura de grunhidos inarticulados e movimentos lentos, um monstro a ser temido e destruído.

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Essa interpretação, embora icônica, ignora a essência trágica da Criatura de Shelley: um ser sensível, inteligente e eloquente, que aprende a ler, a amar e a questionar sua própria existência, e que é levado à violência apenas após ser implacavelmente rejeitado por seu criador e pela humanidade. É por isso que o anúncio de que Guillermo del Toro – o mestre dos monstros incompreendidos – está finalmente realizando seu projeto de paixão de uma vida inteira é um evento de proporções sísmicas.

E as primeiras revelações sobre sua abordagem, conforme destacado pelo Omelete, indicam que ele fará mudanças cruciais no enredo do livro, mas com um propósito paradoxal: criar a adaptação mais espiritualmente fiel já vista.

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O Frankenstein de Del Toro, estrelado por Oscar Isaac como Victor e Jacob Elordi como a Criatura, não buscará recriar o livro página por página. Em vez disso, Del Toro, como um cirurgião habilidoso, está reimplantando o coração filosófico da obra de Shelley no corpo de uma nova narrativa. Ele está descartando subtramas e alterando eventos, não por desrespeito, mas para focar naquilo que o cinema tantas vezes ignorou: a relação íntima, tóxica e trágica entre um pai negligente e seu filho desesperado.

As diferenças anunciadas não são uma traição ao material original; são a lente de aumento de Del Toro, focando na dor, na beleza e na monstruosidade de ambos, criador e criação. Vamos mergulhar fundo nessas mudanças e analisar por que elas prometem nos dar, finalmente, o Frankenstein que Mary Shelley realmente escreveu.

A Mudança Central: Uma Vida Compartilhada, Uma Tragédia Íntima

A alteração mais significativa revelada por Del Toro é a compressão da linha do tempo e a proximidade física entre Victor e sua Criação.

  1. O Abandono Imediato vs. a Convivência Forçada: No romance de Shelley, Victor Frankenstein fica horrorizado com sua criação no momento em que ela abre os olhos. Ele foge de seu laboratório, abandonando o “filho” recém-nascido à sua própria sorte. Grande parte do livro segue as jornadas separadas dos dois, com a Criatura aprendendo sobre o mundo sozinha enquanto Victor é consumido pela culpa à distância. Del Toro, ao que parece, está eliminando essa separação. Ele sugere que Victor e a Criatura passarão um ano juntos na mesma propriedade, forçados a uma convivência desconfortável.
  2. Por que Essa Mudança é Genial: Esta alteração é um golpe de mestre narrativo. Em vez de a rejeição ser um único ato de covardia, ela se torna um processo contínuo de abuso psicológico e negligência. Imagine a tensão diária: Victor, incapaz de olhar para sua criação, tratando-a com desprezo ou medo. A Criatura, com a mente de uma criança em um corpo de adulto, tentando desesperadamente obter a aprovação de seu “pai”, apenas para ser recebida com silêncio e repulsa. Essa proximidade torna a tragédia infinitamente mais pessoal e dolorosa. Não estamos mais vendo a história de um erro abandonado, mas o retrato íntimo de uma relação pai-filho tóxica em sua forma mais extrema.
  3. Acelerando a Educação da Criatura: Essa convivência também resolve um desafio narrativo do livro: a educação da Criatura. No romance, ele aprende a falar, ler e entender a complexidade da emoção humana espionando uma família por meses. Ao colocar Victor e a Criatura juntos, Del Toro pode mostrar esse processo de forma mais direta e dramática. A Criatura pode aprender lendo os livros da vasta biblioteca de Victor, talvez os mesmos clássicos que inspiraram seu criador. Isso cria uma ironia trágica: a Criatura se torna um reflexo da mente de Victor, um ser de profunda sensibilidade e inteligência, o que torna a rejeição de Victor ainda mais monstruosa. Ele não está rejeitando um monstro; está rejeitando a si mesmo.

O Monstro como um Ser em Desenvolvimento, Não um Demônio

A visão de Del Toro para a Criatura se alinha perfeitamente com o livro, em oposição direta a 90% das adaptações cinematográficas.

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  • Da Inocência à Raiva: Del Toro enfatiza que veremos a Criatura evoluir. Ele não nasce mau. Ele nasce como uma “tabula rasa”, uma lousa em branco. Sua jornada será a de uma criança que se torna um adolescente e, finalmente, um adulto, mas em um período de tempo comprimido. Veremos sua curiosidade inicial, sua alegria com as pequenas descobertas, sua busca por amor e conexão. E então, veremos como o constante gotejamento de rejeição e ódio transforma essa inocência em amargura e, finalmente, em uma raiva vingativa. O filme nos forçará a testemunhar a criação de um “monstro” não no laboratório, mas no cadinho da crueldade humana.
  • Jacob Elordi: A Beleza Quebrada: A escolha de Jacob Elordi, um ator conhecido por sua beleza convencional, é outra decisão subversiva. Isso sugere que a “feiura” da Criatura não será a de um monstro de borracha, mas algo mais sutil e perturbador. Talvez seja a assimetria, as cicatrizes da costura, a pele translúcida que mal esconde os músculos e veias por baixo, ou o “olhar aquoso” que tanto horrorizou Victor no livro. Ao escalar um ator como Elordi, Del Toro pode explorar a ideia de que a monstruosidade percebida da Criatura está, em grande parte, nos olhos de quem vê. É um ser feito de partes humanas perfeitas, mas cuja soma é considerada “errada”, uma metáfora poderosa para como a sociedade rejeita qualquer coisa que não se encaixe em suas normas estreitas.

Victor Frankenstein: O Verdadeiro Monstro da História

A abordagem de Del Toro, amplificada pela escolha de Oscar Isaac, promete finalmente colocar o foco no verdadeiro vilão da obra de Shelley.

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  1. A Arrogância do Criador: Oscar Isaac é um mestre em interpretar homens brilhantes, carismáticos e profundamente falhos. Seu Victor Frankenstein não será um cientista louco genérico, mas um homem de ambição prometeica, um intelectual que ousa brincar de Deus, mas não tem a maturidade emocional ou a responsabilidade moral para lidar com as consequências. A convivência forçada com sua criação irá expor sua fraqueza, sua covardia e seu narcisismo.
  2. A Negligência como Pecado Original: No universo de Del Toro, o maior pecado raramente é um ato de maldade, mas um ato de indiferença ou falha em agir. O pecado de Victor não é ter criado a vida; é ter se recusado a amá-la, a guiá-la, a assumir a responsabilidade por ela. Ao nos forçar a assistir a esse ano de negligência, Del Toro deixará claro que cada ato violento que a Criatura comete posteriormente é um eco direto da crueldade original de seu criador. A Criatura se torna o legado ambulante do fracasso moral de Victor.

Conclusão: A Tragédia Gótica que Merecemos

Guillermo del Toro não está fazendo um filme de terror. Ele está fazendo uma tragédia gótica sobre a solidão. Ele entende que a essência de Frankenstein não é o medo do monstro, mas o medo de ser o monstro – de ser fundamentalmente sozinho no universo, incompreendido, não amado e rejeitado por seu próprio criador.

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As mudanças que ele está implementando na narrativa não são simplificações, mas intensificações. Ao prender criador e criação juntos em uma dança macabra de proximidade e rejeição, ele está transformando o subtexto filosófico do livro em um drama psicológico visceral e insuportável. Ele está nos negando a distância segura que outras adaptações nos deram. Não poderemos simplesmente rotular a Criatura como “o monstro” e Victor como “o herói falho”. Seremos forçados a encarar a verdade desconfortável de que a monstruosidade é uma via de mão dupla, nascida tanto da ambição do criador quanto da dor da criação.

Este Frankenstein promete ser a culminação da carreira de Del Toro, um filme que reúne sua empatia pelos “outros”, sua maestria visual gótica e sua profunda compreensão da condição humana. Será doloroso, será melancólico, será terrivelmente belo. E, ao final, é provável que nos deixe não com medo da Criatura na tela, mas com uma profunda compaixão por ela e um medo ainda maior dos monstros que se escondem dentro de nós. Finalmente, após 200 anos, o Prometeu Moderno de Mary Shelley parece ter encontrado seu contador de histórias definitivo.

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Apaixonado por filmes, séries e cultura pop. No Telinha e Telona, compartilho análises, curiosidades e novidades do mundo do entretenimento de forma leve e descontraída.

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