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Wicked: Parte 2 – Por que a Decisão de Não Mostrar Dorothy é a Jogada Mais Genial do Filme

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Wicked: Parte 2 – Por que a Decisão de Não Mostrar Dorothy é a Jogada Mais Genial do Filme

No universo de Wicked, poucas figuras projetam uma sombra tão longa e icônica quanto a da garota do Kansas com sapatos de rubi. Dorothy Gale não é apenas uma personagem; ela é um mito, o epicentro de uma história que o mundo inteiro conhece de cor. Sua chegada a Oz é o catalisador que desencadeia o ato final e trágico da saga de Elphaba, a “Bruxa Má do Oeste”.

Por isso, a questão de como a adaptação cinematográfica de Jon M. Chu lidaria com sua presença era uma das mais debatidas e temidas pelos fãs. Quem a interpretaria? Como ela seria integrada? E agora, temos a resposta, conforme revelado na matéria do Omelete, e é uma que é tão surpreendente quanto artisticamente perfeita: nós não veremos o rosto de Dorothy.

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Esta decisão criativa não é um detalhe menor. É a escolha mais importante que o filme poderia fazer para preservar sua própria identidade e honrar sua premissa fundamental. Wicked, em sua essência, é um ato de revisionismo. É a história que conhecemos, contada do outro lado do espelho. Seu poder reside em pegar a narrativa de O Mágico de Oz e virá-la de cabeça para baixo, forçando-nos a questionar tudo o que pensávamos saber sobre o bem, o mal, a bruxa boa e a bruxa má. Ao optar por manter Dorothy como uma figura periférica, uma silhueta, uma força da natureza vista à distância, Jon M. Chu está fazendo uma declaração poderosa.

Ele está nos dizendo, inequivocamente: “Esta não é a história dela”. E, ao fazer isso, ele não apenas evita as armadilhas de um casting impossível, mas também solidifica a perspectiva de Elphaba como a única que importa, tornando o clímax da história ainda mais pessoal, trágico e profundo.

A Santidade da Perspectiva: “Não Estamos em Kansas”

A genialidade da decisão de Chu reside na compreensão do pilar que sustenta toda a narrativa de Wicked.

  1. A História de Elphaba, e Apenas de Elphaba: O propósito de Wicked é recontextualizar Elphaba. É nos mostrar a mulher por trás do chapéu pontudo, a dor por trás da pele verde, a nobreza por trás dos atos que foram rotulados como “maus”. A história inteira é um exercício de empatia por ela. Introduzir Dorothy como uma personagem totalmente formada, com um rosto, com diálogos, correria o risco de roubar o foco. O público inevitavelmente traria sua conexão preexistente com a Dorothy de Judy Garland para a equação. De repente, teríamos duas protagonistas para acompanhar, duas jornadas para nos importar. Ao manter Dorothy como uma figura anônima e distante, o filme garante que nossa lealdade e nosso foco permaneçam exatamente onde deveriam estar: com Elphaba. Nós vemos Dorothy apenas como Elphaba a vê: não como uma heroína, mas como uma ameaça desconhecida, uma complicação inesperada, a ferramenta final na campanha de propaganda do Mágico para destruí-la.
  2. Dorothy como um “MacGuffin” Humano: Na linguagem do cinema, um “MacGuffin” é um objeto ou dispositivo que serve para impulsionar a trama, mas que não tem importância intrínseca. Na Parte 2 de Wicked, Dorothy funciona como um MacGuffin humano. Ela não é importante por quem ela é, mas pelo que ela representa e pelo que ela faz. Ela é a garota cuja casa mata Nessarose. Ela é a garota que recebe os sapatos que Elphaba acredita serem seus por direito. Ela é a garota que o Mágico usa como uma arma para caçar Elphaba. Sua personalidade, seus sonhos, sua jornada de volta para o Kansas – nada disso importa para a história de Wicked. Ela é um evento, uma força externa que colide com o mundo de Elphaba e o despedaça. Manter seu rosto oculto reforça esse status. Ela é menos uma pessoa e mais um furacão em forma de garota.
  3. Honrando o Legado de O Mágico de Oz (1939): A decisão é também um ato de profundo respeito pelo filme clássico. Tentar escalar uma nova Dorothy seria convidar a comparações impossíveis com a performance icônica de Judy Garland. Nenhuma atriz poderia escapar dessa sombra. Ao não mostrar seu rosto, Chu evita completamente essa armadilha. Ele não está tentando substituir ou refazer a Dorothy que conhecemos e amamos. Ele está reconhecendo que aquela Dorothy pertence àquela história. Em Wásta, estamos vendo os eventos daquele filme, mas de um ângulo diferente, através de uma janela escura. Vemos a silhueta da garota na estrada de tijolos amarelos, ouvimos falar de suas ações, mas nunca entramos em sua cabeça. É uma forma de permitir que os dois filmes coexistam pacificamente, como duas perspectivas diferentes do mesmo evento cataclísmico.

Como Isso Impacta a Narrativa da Parte 2?

Essa escolha criativa terá um efeito profundo na forma como vivenciamos a segunda metade da história.

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  • Aumentando a Paranoia de Elphaba: Ao não conhecermos Dorothy, compartilhamos da perspectiva confusa e paranoica de Elphaba. Quem é essa garota? De onde ela veio? Por que todos a tratam como uma heroína? A falta de informação nos coloca diretamente na pele de Elphaba, que vê essa estranha ser celebrada por matar sua irmã e roubar sua herança. A frustração e a raiva de Elphaba se tornam as nossas, tornando sua espiral descendente em direção à “maldade” muito mais compreensível.
  • Focando na Tragédia Final com Glinda: O clímax emocional de Wicked não é a derrota de Elphaba por Dorothy. É o confronto final e a despedida entre Elphaba e Glinda. É o dueto “For Good”. É a percepção de Glinda de que ela foi cúmplice na destruição de sua única amiga verdadeira. Ao minimizar a importância de Dorothy, o filme pode dedicar todo o seu peso emocional a este relacionamento. A história termina como começou: com duas amigas, mudadas para sempre pelo mundo e uma pela outra. Dorothy é apenas o instrumento do destino que força essa conclusão trágica.
  • O Balde d’Água: Um Acidente Trágico, Não um Ato Heroico: Na narrativa de O Mágico de Oz, Dorothy jogando o balde d’água é o clímax heroico. Na perspectiva de Wicked, é um acidente terrível e mal compreendido. Ao não nos dar acesso aos pensamentos ou à perspectiva de Dorothy, o filme pode enquadrar este momento icônico exatamente como ele deve ser visto nesta história: não como um ato de bravura, mas como o fim trágico e acidental de uma mulher incompreendida, perpetrado por uma criança assustada que não tinha ideia do que estava fazendo. A ausência do rosto de Dorothy nos impede de torcer por ela, forçando-nos a sentir apenas a dor da perda de Elphaba.

Conclusão: A Coragem de Manter o Foco

Em uma era de cinema de franquia onde cada personagem é uma potencial oportunidade de spin-off e cada ator é um grande nome para colocar no pôster, a decisão de Jon M. Chu de ocultar Dorothy é um ato de coragem artística e de notável contenção. É uma prova de que ele e sua equipe entendem a alma de Wicked em um nível fundamental. Eles sabem que a força da história não está em recriar o que já conhecemos, mas em nos mostrar o que estava escondido nas sombras da narrativa que pensávamos conhecer.

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Manter Dorothy como uma silhueta, um boato, uma força invisível, é a escolha que serve melhor à história de Elphaba. Garante que o holofote nunca se desvie da verdadeira protagonista. Transforma a chegada de Dorothy de uma participação especial em um evento pressago, uma tempestade se formando no horizonte. E, o mais importante, permite que a Dorothy de Judy Garland permaneça intocada, um ícone em seu próprio universo, enquanto a saga de Wicked completa seu círculo trágico.

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Esta decisão não é um truque ou uma evasão. É uma escolha deliberada que demonstra um profundo amor e respeito tanto por Wicked quanto por O Mágico de Oz. É a prova de que a equipe por trás da adaptação sabe que, para contar a história da Bruxa Má do Oeste da maneira certa, não podemos, nem por um segundo, estar em Kansas.

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Apaixonado por filmes, séries e cultura pop. No Telinha e Telona, compartilho análises, curiosidades e novidades do mundo do entretenimento de forma leve e descontraída.

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