O Filme novo sobre Michael Jackson é bom?
A cinebiografia de Michael Jackson, intitulada simplesmente como “Michael”, chega aos cinemas com a promessa de ser o evento cinematográfico definitivo sobre o Rei do Pop. Produzido por Graham King — o nome por trás do estrondoso sucesso de Bohemian Rhapsody — e dirigido por Antoine Fuqua (Dia de Treinamento), o longa não é apenas uma retrospectiva musical, mas uma tentativa ambiciosa de remoldurar a imagem de um dos artistas mais complexos e controversos do século XX. No entanto, como acontece com qualquer obra que lida com uma figura de tal magnitude, o filme carrega o fardo de equilibrar a genialidade artística com as sombras de uma vida pessoal tumultuada.
O Poder da Música e o Controle do Espólio
Qualquer projeto que se proponha a explorar a vida de Michael Jackson já entra em campo com uma vantagem competitiva avassaladora: o catálogo musical. A cinebiografia de Michael Jackson tem o direito total de uso das composições que moldaram a cultura pop global. Desde a energia vibrante da era Jackson 5 com “ABC” até a perfeição técnica de “Bad” em 1988, a trilha sonora é o fio condutor que garante o engajamento emocional do público.
Entretanto, esse acesso irrestrito vem com um preço narrativo. O filme é uma produção direta dos executores do espólio de Jackson, o que levanta questões cruciais sobre a objetividade do roteiro. A decisão de encerrar a cronologia do filme em 1988 é estratégica e, para muitos críticos, conveniente. Ao parar nesse ponto, a narrativa evita os períodos mais sombrios da vida de Michael, como o isolamento em Neverland, as acusações de abuso infantil que surgiram na década de 90, os casamentos midiáticos e as transformações físicas extremas que dominaram os tabloides até sua morte em 2009. O objetivo parece claro: reintegrar a arte ao artista, filtrando o ruído das controvérsias para que o brilho do performer brilhe sem manchas.
Jaafar Jackson: O DNA do Rei do Pop na Tela

Um dos pilares que sustenta a cinebiografia de Michael Jackson é, sem dúvida, a escolha do protagonista. Jaafar Jackson, filho de Jermaine Jackson e sobrinho de Michael, assume a responsabilidade de interpretar o tio. A escolha não foi meramente nepotista; Jaafar entrega uma dedicação impressionante, capturando não apenas os movimentos de dança icônicos, mas a cadência vocal e a vulnerabilidade do Rei do Pop.
A semelhança física, potencializada por um trabalho de maquiagem que busca o realismo sem cair no “vale da estranheza”, permite uma imersão profunda. Durante as recriações de shows, o espectador é transportado para a plateia, sentindo a energia de um carisma que era, por definição, singular. Ao lado dele, o jovem Juliano Valdi brilha como o pequeno Michael, trazendo a doçura e o talento bruto que catapultaram os Jackson 5 ao estrelato.
Apesar do esforço hercúleo do elenco, relatos de bastidores trazem perspectivas divergentes. Curiosamente, Janet Jackson, uma das figuras mais próximas de Michael, teria expressado descontentamento com a produção, criticando desde a aplicação da maquiagem até a forma como as performances foram dirigidas. Essa dissonância familiar destaca como a cinebiografia de Michael Jackson é uma interpretação específica — e talvez higienizada — da realidade.
Direção e Roteiro: Entre o Espetáculo e a Exposição
Antoine Fuqua é um diretor conhecido por sua competência técnica e visceralidade, mas em “Michael”, ele parece operar sob uma vigilância estreita. A direção de atores, geralmente um ponto forte de Fuqua, apresenta oscilações. Nomes de peso como Colman Domingo (Joe Jackson) e Nia Long (Katherine Jackson) entregam performances sólidas, mas muitas vezes limitadas por um roteiro que abusa de diálogos expositivos e, por vezes, infantis.
O roteiro de John Logan parece lutar para conectar as peças biográficas com a mesma fluidez das sequências musicais. Em certos momentos, a biografia serve apenas como uma “liga” funcional entre um hit e outro. No entanto, há brilhos de excelência quando o filme foca em personagens secundários fundamentais, como Bill Bray, interpretado por Kylen Derrow Jones. Bray, que foi guarda-costas e figura paterna de Michael por décadas, representa a estabilidade emocional em meio ao caos da fama.
O Impacto Cultural e a Evolução do Videoclipe

Para enriquecer a análise da cinebiografia de Michael Jackson, é preciso olhar para além do palco. O filme toca em pontos cruciais da história da indústria fonográfica, como o momento em que Michael quebrou a barreira racial da MTV. Antes dele, artistas negros raramente recebiam rotação pesada no canal.
Michael não apenas mudou isso, como transformou o videoclipe de uma simples peça publicitária em uma forma de arte cinematográfica. O filme recria momentos icônicos dessa evolução:
- Thriller: A colaboração com John Landis que redefiniu o gênero de terror no pop.
- Billie Jean: O uso pioneiro de narrativa visual e iluminação.
- Beat It: A integração da dança narrativa com o drama urbano.
Esses marcos são apresentados na cinebiografia de Michael Jackson como uma lista de conquistas que solidificaram sua posição como o maior artista do planeta. Ele buscou os melhores cineastas de sua época para garantir que sua visão transcendesse o áudio, algo que o filme de Fuqua tenta honrar em sua cinematografia.
A Dinâmica Familiar e a Sombra de Joe Jackson
Um dos aspectos mais discutidos na cinebiografia de Michael Jackson é a representação de Joe Jackson. O patriarca da família é retratado como o arquiteto do sucesso e, simultaneamente, o carrasco psicológico de seus filhos. O filme tenta contextualizar as ações de Joe — um homem negro tentando criar uma vida melhor para sua família no Meio-Oeste americano segregado dos anos 50 e 60.
No entanto, a narrativa sofre com um descompasso tonal. O espectador presencia cenas de violência e controle absoluto, seguidas por momentos de “comercial de margarina” com uma família feliz. Essa oscilação torna difícil compreender a verdadeira profundidade do trauma de Michael. A obsessão de Joe por lucro e domínio é inegável, e o filme deixa claro que grande parte da disfuncionalidade adulta de Michael tem raízes diretas na disciplina férrea imposta pelo pai.
A Importância da Cinebiografia de Michael Jackson para as Novas Gerações
Para o público mais jovem, a cinebiografia de Michael Jackson funciona como um portal para entender por que ele ainda é o padrão ouro da performance. O filme detalha seu perfeccionismo no estúdio, sua capacidade de ouvir sons que ninguém mais ouvia e sua visão de espetáculo global.
Pontos Chave da Narrativa:
- A Ascensão dos Jackson 5: A transição da pobreza em Gary, Indiana, para o estrelato na Motown.
- A Independência Artística: A luta de Michael para se desvincular da imagem de “estrela mirim” e criar Off the Wall e Thriller.
- Inovação Técnica: O desenvolvimento do “Moonwalk” e a coreografia que desafiou a gravidade.
- Isolamento e Fama: O contraste entre ser a pessoa mais famosa do mundo e a solidão profunda de Michael.
Ao focar nesses elementos, a cinebiografia de Michael Jackson busca garantir que seu legado artístico seja preservado, mesmo que a conta total de sua vida pessoal permaneça, em grande parte, protegida pelo espólio.
Conclusão: Um Tributo ou uma Peça de Relações Públicas?
Ao final da sessão, a sensação que fica é de que a cinebiografia de Michael Jackson é uma obra tecnicamente impecável e emocionalmente carregada, mas que ainda não é o mergulho definitivo na psique do homem por trás do mito. É um filme feito sob medida para os fãs, para aqueles que querem reviver a magia e se emocionar com as melodias que definiram eras.
Embora o roteiro possa parecer esquemático em sua abordagem biográfica, a performance de Jaafar Jackson e a direção de arte conseguem capturar a essência do que tornava Michael Jackson um fenômeno irrepetível. O filme cumpre sua missão de remoldurar o artista, oferecendo uma luz mais branda sobre sua trajetória e permitindo que a música, mais uma vez, fale mais alto que o escândalo.
Talvez, no futuro, quando o controle sobre a imagem de Jackson for menos rígido, tenhamos uma obra que explore as nuances e contradições de sua vida adulta com a mesma coragem que ele aplicava em sua arte. Por enquanto, esta cinebiografia de Michael Jackson permanece como um tributo vibrante, um espetáculo visual necessário e um lembrete poderoso de por que o mundo nunca esqueceu o Rei do Pop. Se você é um entusiasta da cultura pop, este é um filme que não permite indiferença; ele exige ser visto, ouvido e, acima de tudo, sentido.
Share this content:



Publicar comentário